Consciência Social


28/01/2013
Bruno Ávila, Karoline Schwartzhaupt, Lucas Falcão e Natacha Steffen

Autores Bruno Ávila, Karoline Schwartzhaupt, Lucas Falcão e Natacha Steffen *

 

Resumo

 

O Lar São Vicente de Paula, um asilo localizado em Novo Hamburgo, foi o local escolhido por nós, integrantes do grupo, para realizar o projeto social proposto pela Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH). Proporcionou mudanças não na vida dos idosos, como também na nossa. Percebemos a realidade que se encontra ao nosso lado e muitas vezes imperceptívelaos olhos. Era outro ambiente, pessoas diferentes com histórias diferentes. Saímos de nossa zona de conforto percebendo outra realidade, diferente da nossa.

 

Palavraschave

 

Marginalização; Realidade; Transformar; Idosos; Consciência.

 

Introdução

 

Desde o século XVI com a extração da cana-de-açúcar, havia os senhores de engenho e seus escravos, os quais eram oprimidos. Esse é um dos primeiros relatos da desigualdade no Brasil. Com o passar dos anos, essas diferenças sociais se agravaram com o surgimento das indústrias, paralelamente ao capitalismo que influenciou para que houvesse uma classificação das classes sociais. Oprimir tornou-se uma palavra comum com o passar dos séculos. Como resultado dessa expansão econômica, visualizamos a marginalização de uma parte da população.

 

Marginalizar: impedir que as pessoas participem de uma sociedade ou qualquer grupo de vida pública1. Desta forma percebemos o que vem acontecendo no Brasil com uma parcela da população. Assim torna-se importante tomarmos consciência da realidade nacional, e não deixarmos de lado essas pessoas que necessitam de um amparo. É nesse espaço que se encaixa o projeto social “Um Olhar Para O Outro”.

 

Com propósito de dar assistência às pessoas necessitadas, a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo proporciona aos seus alunos do ensino médio uma perspectiva de vida diferente. Trata-se de conhecer uma realidade fora do nosso cotidiano, e mostra o quanto é importante essa relação de aceitar as pessoas, independente de sua história, cultura e etnia.

 

Frequentamos o Lar São Vicente de Paula com propósito de conhecer essa realidade fora do nosso dia a dia. Efetuamos o projeto com idosos,a partir de 60 anos, carentes de atenção. A maioria foi abandonada no lar. Desta forma proporcionamos carinho e momentos especiais como diálogos, jogos de carta, dia da beleza, entre tantos outros. O auxílio que demos a eles foi uma forma significativa de dar-lhes atenção e dedicação, na tentativa de minimizar o impacto da marginalização.

 

Transforme-se

 

Assim como o nosso planeta é complexo em toda a sua natureza, o ser humano também, pela interdependência entre os seres. A problemática se encontra não apenas neste século, mas em nossos antepassados. Com o tempo, desaprendemos a olhar para o outro, pelo simples fato de evitar ferir-nos com a situação alheia. Com a escravidão, o desenvolvimento do capitalismo, e a concretização das classes sociais este olhar, esta relação de interdependência dos seres, se tornou cada vez mais escassa. Procurando fortalecer estes laços de relações, o projeto social “Um olhar para o outro” que foi incentivado pela Instituição Evangélica de Novo Hamburgo no Lar São Vicente de Paula, fez-nos sair de nosso cotidiano para ter contato com a realidade.

 

Imaginamos que chegaríamos à entidade e encontraríamos idosos que nos contassem suas histórias, nos abraçasse transmitindo seu carinho, com saúde, sendo receptivos. A realidade em que vivíamos não nos permitia perceber o que nos aguardava. A primeira visita ao Lar nos comoveu, e ao mesmo tempo, assustou. Perceber a decadência em que aqueles idosos se encontravam nos tirou de nossa zona de conforto. O rosto do outro tornou impossível a indiferença, obrigou-nos a tomar uma posição2. Não eram mais questões que observávamos na mídia, ou escutávamos histórias. A situação estava ao nosso lado, apenas não percebemos antes por estarmos alienados em uma sociedade de aparências. Somos uma espécie que se mostrou capaz de oprimir e massacrar seus próprios irmãos e irmãs3.

 

Tínhamos um desafio. Conquistar aqueles 50 idosos, e poder fazer a diferença para cada um deles. A situação de vulnerabilidade era evidente. Muitos idosos encontravam-se abandonados naquele local, sem receber visitas e no momento em que tentávamos algum tipo de contado, não éramos correspondidos. A fragilidade de seus corpos era perceptiva. Dificilmente observávamos a força de ser pessoa, ou seja, a capacidade de conviver, crescer e humanizar-se com a consciência da perda, da morte4. Eles estavam sempre à espera, de que em um futuro próximo seus parentes, amigos próximos os-buscariam daquele local.

 

Apesar da dificuldade inicial para nos relacionarmos, aprendemos com o tempo a conhecer a realidade deles, podendo assim, fazer parte dela. Os sentimentos e as ações movidas pela nossa solidariedade exprimem nosso senso moral5, a maneira como avaliamos e interpretamos nossa situação e de nossos semelhantes, considerando ideias como justiça e injustiça. Ao avaliarmos segundo nosso senso moral tais condições, percebemos que não os idosos, como também a própria entidade necessitava de auxílio.

 

Planejamos, então, nosso projeto com a intenção de auxiliar os idosos e a entidade. Ajudar as enfermeiras cortando as fraldas para a utilização dos idosos, ajudar nos serviços da copa, foram pequenos atos feitos pelo grupo para a melhoria da organização. Assim, proporcionávamos uma melhora na estrutura do lar para os idosos. Além disso, demonstramos o máximo de carinho e dedicação com eles. Jogamos carta, montamos o dia da beleza para as avós poderem pintar suas unhas, conversamos. Com o tempo, o desafio de conquistá-los se tornou uma realidade fácil, pois foram se acostumando com nossa presença.

 

Com a aproximação deles, foi possível um compartilhamento de histórias, entre elas algumas que nos marcaram por seu pequeno significado.Lembramo-nos de uma avó que estava com seu caderno de receitas. Sentamos ao lado dela e observamos, maravilhados, a riqueza que continha naquele caderno e a grande cozinheira que ela havia sido. Relatou-nos, contente, os pratos que mais gostava de fazer. O que nos marcou, foi a triste realidade de perceber que ela sabia que não poderia mais fazer suas receitas, pois se encontrava em um local onde isso não era permitido.As alegrias que muitas vezes os idosos sentiam, durava pouco tempo, até eles se lembrarem do local onde estavam. Outra história que nos marcou de certa maneira foi de uma grande personalidade que observamos no lar, uma senhora também, com a qual encontramos dificuldade de nos relacionar. Ela ficava facilmente irritada nos deixando assustados e sem reação. Muita da sua insatisfação era fruto da semente do abandono, do descuido de seus familiares.

 

Encaramos a barreia de nossos relacionamentos, tentando ao máximo diminuí-la. Não foi uma tarefa fácil, mas ao notar as condições em que eles se encontravam, fez-nos, realmente conhecer a realidade que não desejamos para o próximo. Assim, não se tratava mais apenas conquistar os idosos como desafio, mas também a busca de uma solução para que se diminua o abismo entre a sociedade que julga pela aparência, e as pessoas marginalizadas, no caso de nosso projeto, os idosos. Não significa voltar ao passado, mas oferecer um novo enfoque para o futuro comum6.

 

Considerações Finais

 

Vivemos fechados, com nosso conforto. Buscamos o individual e não a sociedade interligada como é. O ser humano tem os pés no chão, a realidade como seu cotidiano e a cabeça aberta para o infinito, visualizando a situação global, mas não buscando melhorá-la7. Somos diferentes, temos realidades diferentes, porém estamos em um mesmo chão comum chamado humanidade.

 

Buscamos uma percepção do outro, como um ser igual a nós. Conhecer a realidade fora de nosso cotidiano proporcionou conhecimento, experiência e o mais importante,a concepção de um mundo prejudicado, o qual necessita de nosso amparo.O pensamento de nosso cotidiano transformou-se na realidade. Pequenas ações transformam-se em grandes atos. Admiramos a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo por nos proporcionar essa oportunidade de mudança de olhar. Saímos de nossa zona de conforto ao presenciar a realidade do Lar São Vicente de Paula.

 

Além de considerar nosso senso moral, este projeto social foi avaliado por nossa consciência moral8. Não fomos obrigados pelos outros, cada membro de nosso grupo decidiu sobre suas atitudes, encontrou suas justificativas,para que assim assumisse suas consequências, decisões e justificativas perante os outros. Decidimos encarar a situação que nos foi imposta, e como justificativa, acreditar que olhar para o outro, com o brilho do olhar, faria a diferença. Após esta experiência, apenas obtivemos consequências positivas. Presenciar esta diferença de realidade nos transformou, mudou nossa visão sobre o que nos espera fora da janela da sala de aula.Pois viver deveria ser - até o último pensamento e derradeiro olhar - transformar-se. (LUFT, Lya)

 

Referências:

 

BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. 6 ed. rev. atual. Curitiba: Positivo, 2006.

CHAUI, Marilena. Filosofia: série novo ensino médio. São Paulo: ed. Ática S.A.

1. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o dicionário da língua portuguesa. 6 ed. rev. atual. Curitiba: Positivo, 2006.

2. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. RJ: Vozes, 1999. (pg. 139)

3. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra.RJ: Vozes, 1999. (pg. 137)

4. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. RJ: Vozes, 1999. (pg. 144)

5. CHAUI, Marilena. Filosofia: série novo ensino médio. São Paulo: ed. Ática S.A. (pg. 203)

6. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. RJ: Vozes, 1999. (pg. 137)

7. BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. RJ: Vozes, 1999. (pg. 135)

8. CHAUI, Marilena. Filosofia: série novo ensino médio. São Paulo: ed. Ática S.A. (pg. 205)

 

* Alunos da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo - Unidade Fundação Evangélica - 3° ANO C  - IENH 2012



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